YOU ARE HERE:
África do Sul: Questões sobre o novo estudo de prevalência do VIH
, Monday, September 22, 2008
Reproduzido da PLUS NEWS, Quinta-feira, 11 de Setembro 2008

Proeminentes especialistas em demografia e cientistas refutaram vigorosamente a tese do Ministro da Saúde, Manto Tshabalala-Msimang, que considera que a epidemia do VIH na África do Sul está a diminuir e que o país “pode estar a ter algum progresso real na sua resposta à epidemia do VIH”.

A afirmação de Tshabalala-Msimang foi baseada num estudo nacional sobre VIH feito em mulheres grávidas, estudo que os investigadores consideram apresentar graves erros metodológicas.

O relatório apresentado no site do departamento de saúde, no dia 29 de Agosto, afirma que a prevalência entre mulheres grávidas, desceu de 29,1% em 2006 para 28% em 2007.

O Professor Rob Dorrington, especialista em demografia na University of Cape Town e o seu colega, Professor David Bourne, indicam numa carta publicada esta semana no South African Medical Journal (SAMJ), que o estudo de 2007 utilizou uma metodologia não apenas radicalmente diferente da que foi usada em 2006, mas também “manifestamente errada”.

Os autores detectaram um problema quando verificaram que as mudanças na prevalência por grupos etários não correspondiam a mudanças na prevalência geral, e que os números distritais eram inconsistentes com as estimativas provinciais.

Os autores deduziram que os resultados dos centros de obstetrícia distritais em 2006 eram simplesmente totalizados para calcular estimativas de prevalência nas nove províncias do país, mas em 2007 o departamento de saúde começou a calcular os números provinciais de acordo com os grupos etários baseados nas estimativas da população geral para a distribuição etária.

Dorrington e Bourne descrevem a nova metodologia como sendo “claramente problemática” porque a distribuição etária de mulheres que se dirigem a centros de obstetrícia é muito diferente da distribuição etária da população feminina no seu total.

“Uma vez que a prevalência do VIH também tem um padrão etário distinto, e a prevalência é mais baixa nos grupos etários mais jovens que nos mais velhos, usar a população total de mulheres para repesar a informação vai inevitavelmente subestimar a prevalência de mulheres que se dirigirem a centros de obstetrícia públicos,” escreveram.

Após recalcularem as estatísticas de 2007 usando o mesmo método aplicado nos dados de 2006, os autores estimaram a prevalência do VIH entre as mulheres grávidas como sendo 29,4%. As estatísticas de prevalência pré-natal são usadas numa combinação com outros estudos e modelos matemáticos para determinar a prevalência do VIH na população total, mas o gráfico revisto sugere que o número de sul-africanos a viver com VIH, provavelmente não desceu.

Dorrington e Bourne também recalcularam a estimativa por cada uma das províncias e verificaram que o cálculo por idades tinha dado origem a “resultados absurdos”, particularmente para a província do Cabo Ocidental, onde a prevalência desceu de 15,1% em 2006 para 12,6 % em 2007, de acordo com o estudo.

Na realidade, apenas dois distritos na província mostraram pequenos declínios e, após totalizarem dados de todos os distritos, os autores estimaram uma taxa de prevalência de 15,3 %.

A Treatment Action Campaign (TAC), um grupo nacional de defesa dos direitos na área da SIDA, emitiu uma declaração na segunda-feira, dizendo que o departamento de saúde tinha “cometido um erro ou enganado o público” ao não indicar a mudança da metodologia usado no relatório de 2007.

O Departamento de Saúde parece não ter capacidade para analisar este género de informação. O porta-voz da TAC, Lesley Odendal, recomendou que as alegações do ministro da saúde sobre a queda da prevalência do VIH devem “ser tratadas com cepticismo”.

Lesley fez notar que mesmo um ligeiro aumento da prevalência não indicaria necessariamente que a epidemia do VIH tenha aumentado. “Tornou-se extremamente difícil interpretar o significado da prevalência nos anos recentes por duas razões: a epidemia de VIH evoluiu para uma epidemia de SIDA [com mais pessoas a morrer] e o tratamento antiretroviral está a ajudar as pessoas com VIH a viver durante mais tempo.”

Na carta para o SAMJ, Dorrington e Bourne escrevem que a análise foi “surpreendentemente omissa” no impacto do tratamento com medicamentos anti-retrovirais (ARV) que prolongam a vida no valor da prevalência.

Cerca de 500.000 Sul-Africanos infectados pelo VIH beneficiaram do roll-out do tratamento ARV, que poderia de facto causar um aumento na prevalência, dependendo nas taxas de mortalidade, mas o estudo de 2007 reviu o número total de pessoas a viver com o VIH de 5,41 milhões em 2006 para 5,27 milhões em 2007.

Dorrington e Bourne concluíram que “a análise destes dados ultrapassa cada vez mais as capacidades do Departamento da Saúde” e recomendam que o governo, no futuro, contrate com a comunidade científica a ajuda necessária a interpretar os números do cálculo da prevalência.

O Departamento de Saúde afirmou que emitirá uma declaração de resposta a todo o criticismo.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA