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Cerca de uma em cada três pessoas seropositivas na Grã-Bretanha pensou no suicídio
Gus Cairns, Tuesday, October 07, 2008
Um estudo realizado na Grã-Bretanha em quatro clínicas que tratam pessoas seropositivas em Londres e em uma na cidade de Brighton, concluiu que 31% dos participantes tinha tido ideação suicida na semana anterior ao inquérito.

O estudo, publicado na revista AIDS, concluiu que os homens heterossexuais, as pessoas negras e os que não informaram os seus próximos sobre a sua seropositividade tinham o dobro de probabilidades de ter ideação suicida em comparação com os outros grupos participantes.

Outros importantes factores preditivos de pensamentos suicidas eram o desemprego, ser solteiro e ter interrompido o tratamento anti-retroviral, embora perdessem significado na análise multivariável.

A ideação suicida estava igualmente associada à má adesão ao tratamento e a um estado de saúde física e mental degradado, mas não estava associada à idade, ao tratamento anti-retroviral, à sua duração ou tipo de combinação terapêutica ou à carga viral.

Os autores referem que, desde 1990, 271 pessoas ou seja cerca de 2% das 14.000 pessoas infectadas pelo VIH que morreram na Grã-Bretanha suicidaram-se, e que a proporção de mortes devidas a suicídio aumentou desde que o tratamento anti-retroviral ficou disponível. No entanto, não existem muitos estudos sobre este assunto a partir do advento do tratamento de combinação e não clarificaram se a infecção pelo VIH estava independentemente associada à ideação suicida ou se simplesmente este facto é mais comum nas pessoas mais vulneráveis a esta infecção.

O estudo acima referido, liderado pela Professora Lorraine Sherr do Royal Free and University College Medical School, inquiriu todos os 903 doentes elegíveis que são seguidos em cinco clínicas, num período de três meses em 2005 e 2006, através de um questionário anónimo, onde se perguntava se tinham tido pensamentos suicidas na semana anterior ao inquérito e com que frequência.

Do questionário constava informação demográfica, perguntas sobre comportamento sexual e existência ou não de uma relação, atitude perante o tratamento, se os doentes tinham revelado aos seus próximos a sua situação de infecção pelo VIH, se estavam ou não sob terapêutica e grau de adesão, sintomas gerais e mentais e qualidade de vida. Obtiveram uma alta taxa de resposta, sendo que 86% de todos os participantes elegíveis responderam ao questionário.

Dois terços do grupo era constituído por homens homossexuais, um quarto por mulheres e 10% eram heterossexuais. Aproximadamente metade dos participantes tinha nascido na Grã-Bretanha; 25% descreviam-se como negros e 8% como asiáticos ou outra etnia e os restantes afirmavam ser caucasianos. Vinte e um por cento nunca tinha estado sob terapêutica anti-retroviral, 66% estava sob esta medicação e 13% já tinha feito tratamento, mas tinha interrompido.
Cinquenta e três por cento dos participantes estava empregado.

Dos 31% que afirmaram ter tido pensamentos suicidas na semana anterior ao questionário, cerca de 10% referiu que este tipo de ideação era “frequente” e cerca de 5% afirmou que era “constante”. Os restantes referiram que os pensamentos suicidas eram ocasionais.

Os dados mostram que os factores preditivos de ideação suicida mais importantes eram, por esta ordem, má condição física e mental, desemprego, má adesão, ausência de relação estável, ausência de informação aos próximos da situação de infecção pelo VIH, ser negro e ser homem heterossexual.

Os factores que não estavam associados à ideação suicida na semana anterior ao questionário incluíam a idade, ter tido sexo desprotegido, número de parceiros sexuais, pessimismo em relação à infecção ou ao facto de poderem transmiti-la e o tipo de combinação terapêutica.

Contudo os pensamentos suicidas eram significativamente mais frequentes nos participantes que tinham interrompido o tratamento (43%) e igual aos que apresentavam má adesão.

Após a análise multivariável, verificou-se que apenas os factores sexualidade, etnia, não revelação do estatuto serológico e estado físico e mental permaneciam como os únicos factores independentes preditivos de suicídio. Os homens heterossexuais tinham quase duas vezes mais probabilidade que os homossexuais e duas vezes e meia mais que as mulheres de apresentar ideação suicida; os negros duas vezes mais que os brancos (a maioria dos participantes negros eram heterossexuais); e as pessoas com problemas de saúde de mental tinham uma probabilidade de mais de duas vezes de apresentar pensamentos suicidas. A associação entre a ideação suicida e a heterossexualidade era ainda mais forte nas pessoas sob terapêutica anti-retroviral.

Este estudo parece reforçar a ideia que a infecção pelo VIH é, só por si, um factor de stress psicológico. Os autores chamam a atenção para o facto de que 31% de ideação suicida é mais do que o dobro da que se observa nos homens homossexuais (13%), um grupo considerado como tendo uma elevada taxa de suicídio. E o facto de que, neste estudo, 45% dos homens heterossexuais afirmarem que têm pensamentos suicidas em oposição a 30% dos homossexuais masculinos, aponta para a infecção pelo VIH e para os factores relacionados, tais como, o estigma e a vergonha, mau estado de saúde e pessimismo em relação à saúde e aquilo a que os autores classificam como “o peso do segredo e a falta de apoio social e comunitário” como sendo as influências mais significativas para a ideação suicida.

Referência
Sherr L et al. Suicidal ideation in UK HIV clinic attenders. AIDS 22(13):1651-1658. 2008.

Tradução
GAT - Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA